
Na política, nem sempre o maior aliado veste a mesma camisa. Às vezes, ele fala outro idioma.
As novas investidas do governo Donald Trump contra o Brasil acabaram produzindo um efeito inesperado: deram ao presidente Lula uma pauta capaz de deslocar o debate eleitoral da economia para a defesa da soberania nacional. E isso muda o jogo.
Enquanto o Planalto tratou de colocar Geraldo Alckmin e o Itamaraty na linha de frente, evitando transformar uma crise diplomática em guerra ideológica, parte da oposição caiu justamente na armadilha que o governo esperava.
Ao hesitar em condenar as medidas americanas com a mesma intensidade das críticas dirigidas ao Palácio do Planalto, abriu espaço para que Lula ocupasse o centro do tabuleiro político como defensor dos interesses brasileiros.
Nos corredores de Brasília, a avaliação é simples: crises externas costumam unir governos e enfraquecer adversários quando o debate deixa de ser partidário e passa a envolver interesses nacionais.
É justamente nessa brecha que o presidente tenta reconstruir pontes com o Congresso, aproximar o setor produtivo e justificar novas medidas de estímulo econômico.
A narrativa muda de tom: sai o governo acuado e entra o governo que reage a uma pressão internacional.
A política, porém, raramente perdoa erros de leitura.
Se a direita insistir em associar sua estratégia à defesa de Trump em vez da defesa do Brasil, poderá transformar um problema diplomático em ativo eleitoral para Lula.
No fim das contas, a oposição corre o risco de descobrir que o maior cabo eleitoral do presidente não está no PT, nem no Congresso. Está sentado na Casa Branca.
🔎 LEITURA POLÍTICA
Trump pretendia pressionar o governo brasileiro. Politicamente, porém, pode estar fortalecendo exatamente quem gostaria de enfraquecer.
Em ano pré-eleitoral, percepção vale quase tanto quanto resultado.

Jucélio Lindenberg é jornalista, radialista, filósofo, escritor e CEO do Portal PB.