Silenciar o Padre Júlio é tentar calar a consciência

Há silêncios que não nascem do acaso. Eles são impostos. Calculados. Convenientes para quem se incomoda com a verdade.

O que se tenta fazer hoje com o padre Júlio Lancellotti — referência nacional na defesa dos pobres — é mais do que uma discordância: é uma tentativa de silenciar uma consciência que insiste em lembrar ao Brasil quem somos e, sobretudo, quem deixamos para trás.

Há mais de 40 anos, o padre Júlio caminha onde muitos preferem não pisar. Está nas calçadas frias, nos viadutos esquecidos, nos becos onde a fome grita e a dignidade é diariamente negada. Ele não chegou ontem, não surfou ondas ideológicas, não buscou holofotes.

Sua trajetória é feita de presença, escuta e ação. De mãos estendidas quando o Estado falha. De palavras firmes quando a indiferença se torna política.

O incômodo que ele causa não vem do excesso, mas da coerência. Padre Júlio vive o Evangelho em sua forma mais radical e simples: amar o próximo. E amar, nesse contexto, é denunciar a desigualdade, confrontar a violência institucional, expor a hipocrisia de quem defende valores cristãos apenas no discurso, enquanto vira o rosto para os corpos famintos à sua porta.

Quando tentam silenciá-lo, não é apenas o padre que querem calar. É o grito dos invisíveis. É a denúncia da miséria que persiste. É a cobrança por políticas públicas que não chegam. É o espelho que ele segura diante de uma sociedade que prefere a ordem ao cuidado, o muro à ponte, o castigo à compaixão.

Padre Júlio não fala por ódio, fala por urgência. Não divide, acolhe. Não exclui, soma. Sua fé não é seletiva. Sua igreja não tem portas trancadas. Seu altar é a rua. Seu sermão é a prática. Sua missão, uma vida inteira dedicada aos que nada têm — e que, por isso mesmo, têm direito a tudo.

O silêncio imposto ao padre Júlio é um erro histórico. Porque calar quem defende os pobres nunca foi caminho para a paz; sempre foi atalho para a injustiça. E a história ensina: vozes como a dele podem ser atacadas, mas não são apagadas. Elas ecoam. Persistem. Ressurgem mais fortes.

Defender o padre Júlio Lancellotti é defender a humanidade em tempos de endurecimento. É afirmar que a fé não pode ser cúmplice da exclusão. É lembrar que o cristianismo que transforma não é o que julga, mas o que se ajoelha para servir.

Silenciar o padre Júlio é tentar calar a consciência de um país. E consciência, quando desperta, não se cala.

✍️ Jucélio Lindenberg é jornalista, radialista, filósofo, escritor e CEO do Portal PB.