Quem tem medo de ir à escola?

Enfrentar o bullying exige perceber a dor que, muitas vezes, se esconde no silêncio da sala de aula.

Há alunos que chegam à escola com medo do recreio, da chamada e dos trabalhos em grupo. Enquanto uns esperam aprender, outros desejam apenas passar o dia sem humilhação. Como educador, indago: estamos percebendo essas crianças?

O dia 5 de novembro marca o Dia Internacional contra a Violência e o Bullying na Escola, incluindo o Cyberbullying. Nenhum estudante deveria precisar escolher entre frequentar a aula e proteger a dignidade.

Bullying não é qualquer desentendimento. É uma agressão intencional e repetida, em uma relação na qual alguém tem dificuldade de se defender. Pode aparecer nos apelidos, nas ameaças e na exclusão. Quando um adulto responde “é só brincadeira”, a criança pode entender que sua dor não merece atenção.

Na sala de aula, precisamos observar quem fica sozinho, quem deixou de participar e quem teme falar na turma. O professor precisa de apoio da gestão para acolher relatos, registrar situações e acompanhar os alunos. Proteger exige continuidade.

Os estudantes fazem parte dessa mudança. Rir da humilhação, incentivar uma ofensa ou compartilhar um vídeo amplia a exposição de quem sofre. Acolher o colega e buscar um adulto de confiança são atitudes possíveis. Precisamos ensinar que pedir ajuda é um direito e ninguém deve enfrentar a violência sozinho.

No celular, a agressão pode continuar depois do sinal. Mensagens, montagens e comentários levam a humilhação para dentro de casa. Por isso, conversar sobre o respeito nas redes é tarefa educativa. Escola e família precisam agir juntas, sem culpar quem sofreu nem tratar a exposição como algo sem importância.

Defendo uma escola que ouça sem constranger, proteja sem expor e responsabilize quem agride, com orientação e acompanhamento. Uma campanha ajuda a abrir a conversa, mas o cuidado precisa aparecer todo dia: na maneira como os adultos intervêm.

Quero uma escola em que o aluno encontre coragem para dizer: “Isso está acontecendo comigo”. E encontre adultos dispostos a agir.

Antes de perguntar por que uma criança não aprende, precisamos perguntar como ela está sendo tratada. De que adianta ensinar palavras se não escutamos o pedido de ajuda que chega em silêncio?

 

Michael Lopes da Silva
Pedagogo, psicopedagogo, ex-secretário de Educação de Esperança e ex-presidente da Undime/PB
Colunista do PortalPB.com | Coluna Educação e Cultura