
Acordo e penso: o que me impulsiona a acreditar que tudo poderia ser diferente? Mas surge também a questão: ser diferente do quê? Do que sou, do que fui? Do hoje, do ontem? Não sei!
Recentemente, li um texto que dizia ser necessário possuir uma estante com vários potinhos bem guardados. Potinhos de esperanças, de amor, de alegrias e até de decepções. Naquela estante existiam muitos potinhos. Fiquei a refletir: quem me dera pegar alguns deles! Não para encher minha estante de sonhos — estes até estão sobrando —, mas para, a cada amanhecer, perceber minhas angústias transformadas em esperanças.
Procurando dentro das gavetas de mim mesma, encontrei potinhos de sublimação! Essa capacidade proposta pelos alquimistas — que falavam em transformar chumbo em ouro — foi recuperada por Freud para explicar a capacidade humana de transmudar sentimentos negativos em positivos.
Sei que estamos vivenciando algo que, se não fomos acometidos pela amnésia, lembraremos para sempre: a pandemia. Lembraremos das experiências amargas, mas também do que Freud sugeriu: a necessidade de aprender a sublimar. Ao recordar disso, recuperamos, mesmo na tragédia, motivos para boas lembranças: nossa capacidade de adaptação, nossa força criativa de transformar a dor em arte e o sofrimento em capacidade de enfrentamento e resolução.
Sublimemos tudo o que for possível, buscando preservar nossos sonhos, ideais e utopias. Quem sabe amanhã encontremos potinhos, lá fora ou dentro de nós, cujos conteúdos nos impulsionem a descobrir o nosso melhor dom: tentar sempre ser melhor. Não apesar do sofrimento, mas inclusive por conta da nossa capacidade de sofrer.
Marleide Cilene (Cila Marcolino) — Psicóloga Clínica