“O Muro do Bope e o abismo da segurança pública: quando o Estado vence, mas o país perde”

A megaoperação nos complexos da Penha e do Alemão reacende uma velha ferida nacional: o confronto entre o Estado e a criminalidade, em que o resultado é sempre o mesmo — sangue, medo e polarização.

O chamado “Muro do Bope”, uma estratégia tática planejada por dois meses, pode até ter sido eficiente do ponto de vista militar, mas levanta questionamentos profundos sobre o custo humano da segurança pública no Brasil.

Mais de cem mortos, dezenas de feridos e uma população aterrorizada em plena capital fluminense.

A narrativa oficial tenta sustentar que “todos os mortos eram criminosos”, mas, na prática, a fronteira entre a justificativa e a desumanização é tênue.

Quando a segurança pública passa a ser medida apenas pelo número de corpos, é sinal de que o Estado perdeu a capacidade de governar pela inteligência e recorreu à força como resposta automática.

O “Muro do Bope” talvez simbolize mais do que uma tática policial: representa o muro invisível que separa as periferias do poder.

O mesmo muro que, há décadas, divide o Brasil entre o país que ordena e o país que obedece — ou sobrevive.

Combater o crime é urgente, mas sem reconstruir a confiança entre Estado e cidadão, continuaremos empilhando vitórias operacionais e derrotas sociais.

✍️ Jucélio Lindenberg é jornalista, radialista, filósofo, escritor e CEO do Portal PB.