
Flávio Bolsonaro tinha uma ordem judicial para entregar os passaportes. Entregou uma carta. E nela escreveu o que as urnas negaram: que é “presidente eleito”.
A correção para “líder”, feita depois, não maquia o desatino — a primeira versão do texto, com nome e brasão da República errados, já dizia muito sobre o esmero de quem o redigiu.
O destino, Miami, não parece acaso. É onde está Willer Tomaz, advogado foragido no inquérito que apura a lavagem de R$ 5 bilhões de casas de apostas e que motivou o pedido de recolhimento dos passaportes.
No STF, outro inquérito apura o dinheiro pedido a Daniel Vorcaro, artífice da maior fraude bancária da história do país. Os exilados que Flávio invoca na carta — De Gaulle, Martí, Guaidó — não respondiam por nada remotamente parecido.
O país, enquanto isso, seguiu o roteiro da normalidade.
O ministro Kassio Nunes Marques, presidente do TSE, confirmou a vitória de Lula por 4,4 milhões de votos.
PL, União Brasil e PP reconheceram o resultado. A embaixada americana, em relatório ao Departamento de Estado, chamou a vitória de “definitiva”.
E Silas Malafaia resumiu o humor da base: “jumentos”.
Tarcísio de Freitas preferiu o vocabulário seguro — “responsabilidade, serenidade e construção de uma oposição forte”.
É o idioma educado para dizer o óbvio: ninguém quer ser fotografado ao lado de quem se autoproclama presidente depois de perder a eleição e embarcar num exílio voluntário.
Sobra o cálculo frio da política: quem recusa a derrota não herda a oposição, entrega.
E a Paraíba, onde o bolsonarismo criou raízes eleitorais, vai precisar decidir se o abraço ainda rende voto ou só constrangimento.
Alguém aí já perguntou isso a quem se apresenta como herdeiro da família?
POLITICANDO COM JUCÉLIO LINDENBERG
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