Como os aplicativos de relacionamento podem afetar a saúde mental?

Por Marleide Cilene (Cila Marcolino)

A carência afetiva é um dos principais impulsos que levam muitas pessoas a recorrerem aos aplicativos de relacionamento em busca de afeto, atenção e validação emocional.

Em muitos casos, essa necessidade está ligada a experiências precoces de rejeição, abandono ou frustrações afetivas, que deixam marcas profundas na forma de se relacionar.

Pessoas emocionalmente carentes tendem a criar expectativas irreais, acreditando que irão encontrar no ambiente virtual o “par perfeito” ou até a solução para todos os seus problemas emocionais.

Essa busca, muitas vezes impulsiva, surge como tentativa de preencher um vazio interno ou evitar a solidão, o que pode resultar em frustrações, decepções e sofrimento psicológico.

A geração que cresceu imersa na tecnologia, especialmente no período pós-pandemia, parece apresentar maior receio de relacionamentos presenciais.

O medo da rejeição, do “não” e da exposição emocional faz com que muitos busquem refúgio no mundo virtual, acreditando que as pessoas ali encontradas compartilham dos mesmos valores, ética, crenças e intenções.

No entanto, é importante lembrar que, nos aplicativos, não se sabe quem realmente está do outro lado da tela. Muitas vezes, pessoas mal-intencionadas se aproveitam da fragilidade emocional, da timidez e da vulnerabilidade de quem busca afeto, utilizando estratégias de manipulação e engano.

O crescimento exponencial do uso desses aplicativos levanta um questionamento importante: até que ponto essa nova forma de se relacionar tem sido mais valorizada do que o bem-estar emocional?

Parece que parte dessa geração perdeu o hábito de conversar, conhecer pessoas de forma natural, “cara a cara”, sair para um encontro simples, como tomar um sorvete ou ir ao cinema, criando vínculos reais e saudáveis.

Essa carência afetiva crescente pode influenciar diretamente na busca por relacionamentos via aplicativos, levando muitas pessoas a aceitarem encontros às cegas, sem conhecer verdadeiramente quem está do outro lado.

Especialistas apontam que a busca constante por validação, curtidas, combinações e correspondências pode afetar a autoestima, principalmente em pessoas mais vulneráveis emocionalmente.

Usuários com baixa autoestima ou grande necessidade de aprovação podem acabar tolerando abusos, desrespeitando seus próprios limites ou abrindo mão de seus desejos para evitar o abandono. Assim, o que parecia uma solução para a solidão pode se transformar em um ciclo de dependência emocional e sofrimento psíquico.

Embora os aplicativos de relacionamento possam ser ferramentas úteis de conexão, quando o principal motivador é a carência afetiva, o uso tende a se tornar compulsivo. Em vez de preencher o vazio emocional, pode aprofundar inseguranças e prejudicar a saúde mental.

Por isso, o desenvolvimento da maturidade emocional é essencial para utilizar essas plataformas de forma saudável e consciente.

Antes de marcar um encontro com alguém que você não conhece, é fundamental adotar medidas de segurança: estabeleça limites claros, seja consistente, realize videochamadas antes do encontro, informe amigos ou familiares sobre onde estará, utilize transporte próprio sempre que possível e escolha locais públicos.

Cuidar da saúde emocional também é uma forma de amor-próprio.

✍️ Marleide Cilene – É Psicóloga Clínica com atuação na área social, especialista em prevenção da dependência química. Atualmente psicóloga no Hospital das Clínicas em Campina Grande-PB