Adolescência e Drogas: problema biológico, psicológico ou social?

A adolescência é uma das fases mais intensas do desenvolvimento humano. Marcada por transformações físicas, emocionais e comportamentais, é também um período de busca por identidade, experimentações e maior autonomia. Nesse contexto, surgem curiosidades, desejos de conhecer o novo e a sensação de capacidade para tomar as próprias decisões — mesmo diante de riscos evidentes.

Para a maioria dos jovens, vivenciar experiências inéditas — como novos ambientes, amizades, músicas e até o contato inicial com drogas — não resulta, necessariamente, em problemas permanentes. Muitos atravessam essa fase e tornam-se adultos saudáveis. Porém, para outros, essas vivências podem desencadear grandes dificuldades, tornando a adolescência um período crítico para o envolvimento com substâncias psicoativas.

A curiosidade natural, somada à influência dos amigos, é um dos principais fatores que levam os adolescentes à experimentação de álcool e outras drogas. Essa busca por prazer imediato conversa diretamente com os efeitos que essas substâncias provocam no organismo.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 10% da população urbana mundial faz uso abusivo de substâncias psicoativas. No Brasil, estimativas da Universidade Federal de São Paulo indicam que aproximadamente 11,4 milhões de brasileiros acima de 14 anos já utilizaram cocaína ou crack ao menos uma vez, o equivalente a 6,6% da população.

Dependência: quando a droga se torna uma “fuga”

A dependência química não surge apenas pelo uso em si. Na maioria das vezes, o indivíduo já se encontra fragilizado emocionalmente e busca na droga um alívio, uma “cura” temporária para dores internas. Por isso, muitos dependentes têm dificuldades em manter relações profundas e estáveis.

Não existe medicamento ou solução milagrosa. A dependência é uma doença incurável, de caráter físico, mental, emocional e espiritual, podendo levar a consequências graves, como internações, conflitos com a lei e até mesmo a morte.


Sinais que podem indicar uso de drogas

Comportamentais e psicológicos

  • Queda no rendimento escolar ou profissional

  • Mudanças bruscas de humor

  • Isolamento social

  • Mentiras e comportamento secreto

  • Negligência com responsabilidades

  • Perda de interesse em atividades antes apreciadas

  • Problemas financeiros ou furtos

  • Forte urgência em usar a substância

Sinais físicos

  • Higiene e aparência descuidadas

  • Alterações no sono e apetite

  • Olhos vermelhos ou pupilas alteradas

  • Tremores, suor excessivo ou tosse persistente

  • Cheiros incomuns na roupa ou corpo

  • Sintomas de abstinência (agitação, dores, náuseas)

É importante ressaltar que nenhum sinal isolado confirma o uso de drogas. Porém, a presença repetida de vários deles merece atenção e diálogo, sempre com acolhimento e sem julgamentos.


Afinal, o que são substâncias psicoativas?

Segundo a OMS, droga é toda substância que, ao ser introduzida no organismo, altera funções fisiológicas ou comportamentais. Elas podem ser naturais ou sintéticas, e atuam diretamente no sistema nervoso central.

Os motivos para o consumo são diversos, e nem mesmo especialistas conseguem defini-los com precisão. Entre os fatores possíveis estão:

  • Busca por novas sensações

  • Influência de pares

  • Curiosidade

  • Fuga da realidade

  • Mudança de valores familiares

  • Pertencimento a grupos específicos ou religiões


Mitos e verdades sobre dependência química

1. Quem usa apenas nos finais de semana é dependente?
👉 Verdade — depende da forma e frequência; a tolerância é um dos critérios.

2. Dependência química é hereditária?
👉 Verdade — há predisposição genética.

3. É possível apenas “reeducar” o uso?
👉 Mito — a abstinência é necessária.

4. O dependente pode se recuperar sem ajuda médica?
👉 Verdade — embora o acompanhamento profissional aumente as chances de sucesso.

5. Dependência é problema de caráter?
👉 Mito — trata-se de uma doença, não de falha moral.

6. Dependentes sempre têm transtornos mentais?
👉 Verdade — com ou sem comorbidades associadas.

7. Existe cura?
👉 Mito — a dependência é incurável, porém controlável.

8. Recuperação é possível?
👉 Verdade — mas exige empenho, apoio e supervisão contínua.


Como ajudar um dependente químico?

Ajudar alguém nessa situação é emocionalmente desgastante. Por isso, familiares precisam buscar apoio psicológico e participar de grupos especializados.

O suporte profissional é fundamental. Médicos, psicólogos e psiquiatras especializados conseguem avaliar o caso e orientar o tratamento mais adequado. Grupos de mútua ajuda também desempenham papel valioso na recuperação.


Orientações finais

  • Droga não resolve problemas — aumenta.

  • A melhor prevenção é não experimentar.

  • Se alguém oferecer, diga NÃO e procure um adulto ou profissional de confiança.

✍️ Marleide Cilene – É Psicóloga Clínica com atuação na área social, especialista em prevenção da dependência química. Atualmente psicóloga no Hospital das Clínicas em Campina Grande-PB